FM SOLO


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Por Marco Bezzi


No refrão de ‘Someday’, Felipe Machado canta: “Someday/ Things will have to change/ Just to make sure/ They remain the same” (Algum dia/ As coisas terão que mudar/ Só para ter certeza/ De que continuarão as mesmas). A frase, tirada do filme ‘O Leopardo’, de Visconti, é uma síntese dos últimos anos do músico. Pequenas mudanças sempre foram necessárias para ele voltar a fazer aquilo que mais ama: produzir música. Foi assim com a série de retornos de sua banda, o VIPER, e agora, com o lançamento de ‘FM Solo’, onde Felipe assina como compositor, toca guitarra e canta. O parceiro Val Santos (Toyshop e ex-VIPER) é o responsável pelos demais instrumentos e produção. Ao vivo, além de Val na guitarra, Felipe vai dividir o palco da turnê brasileira com um time de peso: o baterista Guilherme Martin, seu colega no VIPER, e Rob Gutierrez, baixista e vocal do Hollowmind.

O guitarrista, compositor e (agora) vocalista mergulhou no seu baú de referências a fim de buscar sua identidade para este primeiro trabalho autoral. ‘FM Solo’ evidencia sua paixão pela música, mas também pela escrita, pelas artes e pelo comportamento humano.

‘FM Solo’ é o primeiro trabalho lançado por seu estúdio, o FM Labs – voltado para projetos nas áreas de música, literatura, cinema e TV – em parceria com o selo Wikimetal. No álbum, Felipe não exclui o peso em cima de melodias que circulam entre a fúria de um Nine Inch Nails e a sensibilidade dos Smiths. Canta em inglês, pois é assim que vivenciou seus melhores momentos na música, quando gravou e tocou em mais de 15 países. ‘Perfect One’ abre o álbum, mesclando uma batida marcante e um riff vigoroso com a intenção proposital de fisgar o ouvinte logo de cara. Na direção oposta, ‘Iceland’, a música instrumental que fecha o álbum, é densa, serena. Na edição digital, há ainda a versão acústica de ‘Iceland’ (bonus track).

A palavra álbum não foi utilizada sem propósito. Em tempos de streaming e da volta dos singles, ‘FM Solo’ foi concebido como os álbuns de antigamente, com começo, meio e fim. Não é um disco temático, mas estabelece um equilíbrio entre suas 10 faixas, as letras, a capa e a arte do encarte. A expressão ‘God Man Ape’ (Deus Homem Primata), estampada em letras garrafais, é o resumo dessa visão Darwinista e Kubrickiana sobre a existência humana.

Entre as faixas, há duas versões. A primeira é de ‘Speedway’, de Morrissey. Estilisticamente, poderia causar um estranhamento para quem não o conhece, mas Felipe sempre foi fã do músico inglês – “Morrissey é o Oscar Wilde dos nossos tempos”, compara. Heavy metal e rock britânico resguardaram muitas vezes os mesmos seres introspectivos debaixo de seus guarda-chuvas nos anos 1980. A segunda versão, ‘Tourist’, é da pouco conhecida banda – também inglesa –  Athlete. Há ainda uma composição sua da época do VIPER, uma nova versão de ‘The Shelter’, do álbum ‘Evolution’, de 1992.

Há mais surpresas entre as escolhas rítmicas do trabalho. ‘Take a Chance’ revela seu (bom) gosto pelo guitarrista Nile Rodgers (Daftpunk/Chic). Já ‘Unnatural Fellings’ mantém os pés na década de 1970, mas com os punhos no rock. ‘Someday’ fala do passado, mas empurra a linha do tempo para os anos 2000, com um toque de britpop. Focado nas composições, Felipe utiliza a voz e a guitarra para desenhar cenários e retratar suas observações sobre o cotidiano. Você vai gostar do que ele tem a dizer.